|
Versos à Corina
Guarda estes
versos que escrevi chorando
Como um alívio à minha soledade,
Como um dever de meu amor; e quando
Houver em ti um eco de saudade,
Beija estes versos que escrevi chorando.
Único em meio das paixões vulgares,
Fui a teus pés queimar minh’alma ansiosa,
Como se queima o óleo ante os altares;
Tive a paixão indômita e fogosa,
Única em meio das paixões vulgares.
Cheio de amor, vazio de esperança,
Dei para ti os meus primeiros passos;
Minha ilusão fez-me, talvez, criança;
E pretendi dormir aos teus abraços,
Cheio de amor, vazio de esperança.
Refugiado à sombra do mistério,
Pude cantar meu hino doloroso;
E o mundo ouviu o som doce ou funéreo
Sem conhecer o coração ansioso,
Refugiado à sombra do mistério,
Mas eu que posso contra a sorte esquiva?
Vejo que em teus olhares de princesa
Transluz uma alma ardente e compassiva,
Capaz de reanimar minha incerteza;
Mas eu que posso contra a sorte esquiva?
Como um réu indefeso e abandonado,
Fatalidade, curvo-me ao teu gesto;
E se a perseguição me tem cansado,
Embora, escutarei o teu aresto,
Como um réu indefeso e abandonado.
Embora fujas aos meus olhos tristes,
Minh’alma irá saudosa, enamorada,
Acercar-se de ti lá onde existes;
Ouvirás minha lira apaixonada,
Embora fujas aos meus olhos tristes.
Talvez um dia meu amor se extinga,
Como fogo de Vesta mal cuidado,
Que sem o zelo da Vestal não vinga;
Na ausência e no silêncio condenado,
Talvez um dia meu amor se extinga.
Então não busques reavivar a chama,
Evoca apenas a lembrança casta
Do fundo amor daquele que não ama;
Esta consolação apenas basta;
Então não busque reavivar a chama.
Guarda estes versos que escrevi chorando,
Como um alívio à minha soledade,
Como um dever do meu amor; e quando
Houver em ti um eco de saudade,
Beija estes versos que escrevi chorando.
(Do livro “Crisálidas”)
-Machado de Assis-
Poeta, romancista, novelista,
contista, cronista, dramaturgo, ensaísta e crítico,
nasceu e morreu na cidade do Rio de Janeiro,
respectivamente, em 21/06/1839 e 29/09/1908. Sua obra
tem raízes nas tradições da cultura européia e
transcende a influência das escolas literárias
nacionais.
Filho de um pintor de casas mestiço de negro e
português, após a morte da mãe foi criado pela madrasta,
também mestiça. Adoentado, epiléptico, gago e de figura
trivial, encontrou emprego como aprendiz de tipógrafo
aos 17 anos de idade, começando a escrever durante seu
tempo livre. Em breve, começou a publicar obras
românticas. Colaborou regularmente na imprensa carioca.
Sua obra divide-se em duas fases, uma romântica e outra
parnasiano-realista, quando desenvolveu seu
inconfundível estilo desiludido, sarcástico e amargo. O
domínio da linguagem é sutil e o estilo é preciso,
reticente. O humor pessimista e a complexidade do
pensamento, além da desconfiança na razão (no seu
sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se
afaste de seus contemporâneos. A galeria de tipos e
personagens que criou revela o autor como um mestre da
observação psicológica.
Em 1869 Machado era um típico homem de letras brasileiro
bem sucedido, confortavelmente amparado por um cargo
público e num feliz casamento com uma culta senhora,
Carolina Augusta Xavier de Novais. Naquele ano, a doença
fê-lo afastar-se temporariamente de suas atividades e,
na sua volta, publica um livro extremamente original,
pouco convencional para o estilo da época — "Memórias
Póstumas de Brás Cubas" (1881) —, que, juntamente com "O
Mulato" (de Aluísio de Azevedo), constitui o marco do
realismo na literatura brasileira. Das "Memórias" provém
aquele pensamento do personagem que julga-se feliz por
não ter deixado descendentes que perpetuassem o legado
da miséria humana.
Publicou ainda mais dois romances de sua famosa tríade,
"Quincas Borba" (1891) e "Dom Casmurro" (1899). Estes
livros, ao lado de suas histórias curtas ("Histórias da
Meia Noite", "Papéis Avulsos", "Histórias Românticas",
"Histórias sem Data", "Várias Histórias", "Páginas
Recolhidas", "Relíquias de Casa Velha", "Contos
Fluminenses", "Crônicas"fizeram sua fama como escritor.
Urbano, aristocrata, cosmopolita, reservado e cínico,
ignorou questões sociais como a independência do Brasil
e a abolição da escravatura. Passou ao longe do
nacionalismo, tendo ambientado suas histórias sempre no
Rio, como se não houvesse outro lugar. O mundo natural
virtualmente inexiste em seu trabalho. Escreve com
profundo pessimismo e desilusão que seriam insuportáveis
se não estivessem disfarçados sob o manto da ironia e do
humor inteligente. Foi o principal responsável pela
fundação da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro
presidente; permaneceu nesta qualidade até sua morte.
O Machado poeta é menos conhecido e apreciado, apesar de
sua primeira manifestação literária ter sido feita
justamente com uma poesia ("Ela", publicado na "Marmota
Fluminense"), aos 16 anos de idade.
Publicou quatro livros de poesia. "Crisálidas" (1864) e
"Falenas" (1870) mostram nítida influência de Castro
Alves, com alguma pregação dos ideais de liberdade. Em
"Americanas" (1875) as influências alencarinas são
patentes, e o próprio Machado vale-se do recurso da
metalinguagem externa em uma importante advertência
inicial de que o assunto do livro não era unicamente os
aborígenes brasileiros. "Ocidentais" (1901) já mostra
elementos do realismo: ironia, niilismo, recuperação do
tempo perdido.
É a referência clássica da literatura brasileira,
considerado o maior escritor do país e um mestre da
língua.
Mid: Tristesse (Chopin)
Tubes:Marif / Misted Vintage/
PatryMists

Clique na imagem para enviar
Principal| |Mestres
Poesia|
|Livro
de Visitas|
|