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MENINA E MOÇA
-Machado de Assis-
Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.
Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem cousas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.
Outras vezes valsando, o seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.
Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir as asas de um anjo e tranças de uma huri.
Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.
Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.
Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.
Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando-se talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.
Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!
Ah! se nesse momento, alucinado, fores
Cair-lhe aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar de teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.
É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!
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-Machado de Assis-
Poeta, romancista,
novelista, contista, cronista, dramaturgo, ensaísta e
crítico, nasceu e morreu na cidade do Rio de Janeiro,
respectivamente, em 21/06/1839 e 29/09/1908. Sua obra
tem raízes nas tradições da cultura européia e
transcende a influência das escolas literárias
nacionais.
Filho de um pintor de
casas mestiço de negro e português, após a morte da mãe
foi criado pela madrasta, também mestiça. Adoentado,
epiléptico, gago e de figura trivial, encontrou emprego
como aprendiz de tipógrafo aos 17 anos de idade,
começando a escrever durante seu tempo livre. Em breve,
começou a publicar obras românticas. Colaborou
regularmente na imprensa carioca.
Sua obra divide-se em duas
fases, uma romântica e outra parnasiano-realista, quando
desenvolveu seu inconfundível estilo desiludido,
sarcástico e amargo. O domínio da linguagem é sutil e o
estilo é preciso, reticente. O humor pessimista e a
complexidade do pensamento, além da desconfiança na
razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem
com que se afaste de seus contemporâneos. A galeria de
tipos e personagens que criou revela o autor como um
mestre da observação psicológica.
Em 1869 Machado era um
típico homem de letras brasileiro bem sucedido,
confortavelmente amparado por um cargo público e num
feliz casamento com uma culta senhora, Carolina Augusta
Xavier de Novais. Naquele ano, a doença fê-lo afastar-se
temporariamente de suas atividades e, na sua volta,
publica um livro extremamente original, pouco
convencional para o estilo da época — "Memórias Póstumas
de Brás Cubas" (1881) —, que, juntamente com "O Mulato"
(de Aluísio de Azevedo), constitui o marco do realismo
na literatura brasileira. Das "Memórias" provém aquele
pensamento do personagem que julga-se feliz por não ter
deixado descendentes que perpetuassem o legado da
miséria humana.
Publicou ainda mais dois
romances de sua famosa tríade, "Quincas Borba" (1891) e
"Dom Casmurro" (1899). Estes livros, ao lado de suas
histórias curtas ("Histórias da Meia Noite", "Papéis
Avulsos", "Histórias Românticas", "Histórias sem Data",
"Várias Histórias", "Páginas Recolhidas", "Relíquias de
Casa Velha", "Contos Fluminenses", "Crônicas") fizeram
sua fama como escritor.
Urbano, aristocrata,
cosmopolita, reservado e cínico, ignorou questões
sociais como a independência do Brasil e a abolição da
escravatura. Passou ao longe do nacionalismo, tendo
ambientado suas histórias sempre no Rio, como se não
houvesse outro lugar. O mundo natural virtualmente
inexiste em seu trabalho. Escreve com profundo
pessimismo e desilusão que seriam insuportáveis se não
estivessem disfarçados sob o manto da ironia e do humor
inteligente. Foi o principal responsável pela fundação
da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro
presidente; permaneceu nesta qualidade até sua morte.
O Machado poeta é menos
conhecido e apreciado, apesar de sua primeira
manifestação literária ter sido feita justamente com uma
poesia ("Ela", publicado na "Marmota Fluminense"), aos
16 anos de idade.
Publicou quatro livros de
poesia. "Crisálidas" (1864) e "Falenas" (1870) mostram
nítida influência de Castro Alves, com alguma pregação
dos ideais de liberdade. Em "Americanas" (1875) as
influências alencarinas são patentes, e o próprio
Machado vale-se do recurso da metalinguagem externa em
uma importante advertência inicial de que o assunto do
livro não era unicamente os aborígenes brasileiros.
"Ocidentais" (1901) já mostra elementos do realismo:
ironia, niilismo, recuperação do tempo perdido.
É a referência clássica da
literatura brasileira, considerado o maior escritor do
país e um mestre da língua.
Mid: Serenade
Ernesto Cortazar
Tub: Suzi Sgai

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