Várias pessoas pediram para eu escrever um conto sobre romance virtual, mas eu não podia escrever sobre uma realidade que desconhecia. Agora posso escrever, porque fora na Internet que encontrei mulheres de rara beleza interior, no entanto não tenho a minha própria história, mas vou contar um romance que minha consciência ordena.

 

O namoro virtual exige uma fidelidade incomum, e muitos internautas já contraíram matrimônio em todos os recantos do mundo. Fora num sábado à tardinha que meu amigo Paulo conhecera Mariana numa sala de bate-papo. Os dois perceberam de imediato que tinham afinidades difíceis de encontrar num casal real, ambos tinham idade aproximada de 50 anos, mas Mariana aparentava no máximo 40.

 

As perguntas iniciais do primeiro bate-papo dos dois foram básicas, mas essenciais: local, idade, estado civil, profissão, etc. Após os cumprimentos de praxe, Mariana perguntou:

- Você acha fácil encontrarmos amor ou amizade nestas salas de bate-papos?

- Sabemos que o amor precisa ser expandido na vida real ou virtual. As pessoas estão vivendo em desequilíbrio com o amor verdadeiro. Dificilmente encontramos amigos, um grande amor ou pessoas solidárias, contudo, sempre acreditarei na força do amor, na nossa auto-regeneração e na fé que transforma, respondeu Paulo.

 

Mariana percebeu de pronto que estava falando com um homem sério e tornou a perguntar:

- Parece-me que você não está apaixonado, acertei?

- Sempre amarei uma mulher com toda a intensidade de meus sonhos, porque ainda não consegui doar sentimentos que estão hibernando em minha memória, vivendo em estado de latência, talvez.

 

Minha amiga também percebeu que estava conversando com um homem extremamente romântico, por isso ela perguntou:

- Você ainda espera ser amado? 

- Não entendi a sua pergunta, porque o amor não marca hora para começar, continuou Paulo; não espero de uma mulher o amor que jamais consegui, mas tenho esperança em satisfazer a mulher que nasceu para viver ao meu lado com a força de um amor que nem eu ainda conheci.

 

Mariana afastou o teclado e conjeturou:

- Estou enganada, porque você parece que está apaixonado, quem teve a sorte de merecer o seu amor?

- Sou muito romântico e sempre achei que tenho paixão por uma mulher que ainda não conheci. Acho que andei semeando o amor único e eterno, mas não estou sabendo conviver com a longa espera desse possível amor, contudo, não tenho pressa de colher tudo que for plantado com amor.

 

Os dois voltaram a marcar encontro na mesma sala de bate-papo dois dias depois. O modo meigo de Mariana despertou o amor de Paulo, ambos passaram a alimentar um amor sem compromisso com o tempo. Uma semana depois, em nova conversa virtual, Mariana perguntou:

- Você não acha que estamos exagerando e indo com muita pressa?

- Agora acredito que meu maior sonho é possível de ser realizado. Até neste instante sinto uma vontade infinita de agradecer a Deus pela sua existência. Não estou sendo exagerado, pois mulher como você eu ainda não havia conhecido. Também jamais vou querer perder a sua amizade, porque ainda não encontrei a sua suavidade em outra mulher.

 

Um mês depois parecia que a distância física incomodava Mariana, por isso ela perguntou:

- Você mora em Natal e eu em Florianópolis, o que faço quando tiver vontade de vê-lo?

- Mariana, neste momento, tenho que censurar minhas palavras para evitar excessos do meu coração. Meu desejo de fazer promessa deve ser refreado, pois não posso deixar de cumprir minha palavra, continuou Paulo; quero agora poder sonhar com nossos passeios imateriais, com a junção de nossas afinidades, com o extermínio de minha mais antiga saudade e com o direito de adquirir o conforto incessante. Quero seguir com você numa estrada impalpável rumo à benevolência que deveremos exercer. Mas só conseguirei a felicidade terrena quando tiver a certeza que serei capaz de suscitar apenas um de seus largos sorrisos, pois tudo que for capaz de lhe contentar me terá como cúmplice generoso, portanto, a minha lealdade também já está sob seu domínio.

 

O romance dos dois parecia estável, mas Mariana voltou a namorar seu ex-noivo, era um golpe inesperado no coração de meu amigo. Ela queria acabar o namoro virtual e disse sem rodeios:

- Não podemos alimentar um amor virtual, Paulo. 

- Sei, minha adorável Mariana, que não posso alimentar um amor virtual, mas não posso, ao mesmo tempo, refrear os impulsos do meu coração, pois é da espontaneidade da minha alma que tenho vivido sem medo de propagar as diferentes formas de amar. Jamais tencionarei omitir o bem-querer que adquiri por você em tão pouco tempo, bem como ainda não posso explicar os apelos da minha alma, contudo, sou fiel a tudo que é gerado pelo meu sentir.

 

Mariana enviou e-mail para o Paulo e disse que havia voltado para seu ex-noivo. Completamente desolado, ele convidou-me para conversamos numa sala de bate-papo. Fazia mais de um ano que eu não tinha notícia de meu amigo, foi nossa primeira conversa depois que ele saíra de Fortaleza para morar em Natal. Paulo havia passado meu e-mail para Mariana e eu não sabia qual a intenção dele ao fazer meu elo com ela.

 

Dois meses se passaram e bateu um profundo arrependimento em Mariana, então ela resolvera vir até Fortaleza. Fui encontrar com ela num hotel e fiquei sabendo que o Paulo nunca mais havia respondido um e-mail dela. O amor que Mariana tinha por ele era comovente. Resolvi ir com Mariana até Natal, porque não consegui localizar o Paulo de Fortaleza.

 

Eu conhecia Natal, mas não sabia o endereço do meu amigo Paulo, entretanto, se eu fosse até o bairro dele poderia encontrar sua residência. Parecia que o destino queria que eu encontrasse a casa do meu amigo, reconheci a casa que eu tinha ido apenas uma vez. Apertei a campainha e fomos recebidos pelo Roberto, irmão de Paulo.

 

Já acomodados num confortável sofá, perguntei ao Roberto:

- O Paulo está aqui? 

- Você ainda não soube? Amanhã fará um ano que ele morreu.

- Como?! indagou Mariana bastante assustada.

 

Nunca vi alguém chorar tanto, as lágrimas de Mariana deveriam ser destinadas ao mar. O amor sem igual que ela tinha por meu amigo encheu-me de comoção e piedade. Fomos para o aeroporto e estávamos a caminho de Fortaleza. Sentada ao meu lado, Mariana era a expressão da tristeza, suas lágrimas incessantes cortavam meu coração, eu não queria romper o silêncio dela, porque deveria respeitar seu momento de dor.

 

Mariana veio a falecer seis meses depois que eu a vi pela última vez. Era madrugada do dia 17 de dezembro de 2003, quando notei meu teclado mover-se sozinho, deixando a seguinte mensagem:

- O amor não escolhe idade, não delimita mundo, não encontra obstáculo, não abre ferida e nem se acaba, porque é imaterial. Obrigada, meu amigo.

 

Luiz Gualter

 

 

*Romance entre internautas também provoca paixões arrebatadoras, por isso aconselho as pessoas a não ingressarem num romance virtual sem antes obter informações da pessoa contatada, porque já conheci vários casos em que internautas despertam paixões e depois desaparecem sem deixar a menor explicação, provocando depressões e outros distúrbios mentais. *  

*Nota do autor

  

Arte Final Fascination


Mid: Luzes da Ribalta
( Charles Chaplin )
Image: Net

 

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